Para envelhecer bem
Um sujeito vivendo esta fase da vida, “o
envelhecer”, tem muitos desafios para
enfrentar. Algumas destas questões são bem visíveis e práticas, e andam ao lado
de outras, que são bem íntimas, importantes e podem ficar somente na
privacidade do indivíduo.
Externamente, o corpo muda de modo visível. As
modificações físicas exigem redefinir atividades físicas, aceitar limitações,
buscar cuidados para manter a saúde. Internamente pode haver um luto pelo corpo
jovem, pela beleza. O susto com aquela nova ruga, um novo cabelo branco pode
fazer de um amigo antigo – o espelho – uma companhia desagradável.
A vida social vai passando por transformações, mudam
os gostos. O barulhento bar de música ao vivo, que já foi a primeira escolha de
diversão do fim de semana, pode dar lugar a outro, onde dá para dançar e
conversar. A relação com o trabalho muda. Será tempo de continuar a trabalhar
ou ficar em casa? Trabalho ainda é uma questão de ncessidade ou de vontade? É
preciso reavaliar.
O intenso cotidiano de atenção aos filhos pode ser
substituído pela quietude, agora que eles estão morando fora. O novo silêncio
pode ser preenchido com nostalgia, ou tranquilidade, ou ainda, quem sabe, bons
momentos para namorar.
Envelhecer é também ver aqueles que amamos envelhecer.
Às vezes, viver a alegria de poder continuar contando com alguns deles para o
riso e o choro do dia-a-dia, ou precisar despedir-se dos que se vão, e curar a
mente e o coração da dor da perda.
Algumas dores são mais acessíveis a todos. Por
exemplo, o ciúme, antes de darmos os primeiros passos, já é possível
identificá-lo, e mesmo assim, é um sentimento difícil de aceitar e de falar
sobre ele. Mas permanece sendo acessível a todas as idades. Dito isto, há muitas
emoções que são exclusivas do envelhecer, só sabe quem passa por ele.
Nota-se a evolução social para a saúde dos idosos no
aumento da procura por ajuda em geral, e, em especial pela Psicologia, área da
saúde que atua diretamente no desenvolvimento humano, com a finalidade de
tratar as questões pessoais, dentre elas,
as dificuldades emocionais,
comportamentais, cognitivas, etc.
Atualmente a população idosa representa um grupo de
pessoas que procura os serviços de saúde bem mais que antes. Nossa cultura vem
rompendo paradigmas, vencendo preconceitos, abrindo conhecimentos sobre esta
fase da vida tanto para o idoso como para a população em geral. São vários os
fatores que determinam esta mudança, no qual a mídia tem grande parcela de
contribuição quando faz com que as informações atinjam a sociedade como um todo.
A psicoterapia, em qualquer fase da vida, vem ser a
oportunidade para o autoconhecimento que possibilita o desenvolvimento, através
da investigação das questões ligadas aos fatores emocionais, comportamentais,
profissionais, de decisão, luto, dificuldades no relacionamento, etc., e
propicia ao sujeito uma nova forma de estar no mundo.
Nesse sentido, os psicólogos recebem cada vez mais
solicitações de idosos que se confrontam com dificuldades adaptativas nesta
etapa do ciclo vital. Há tempos atrás, o idoso chegava à psicoterapia, permeado
pelo preconceito de que a ajuda psicológica se configurava com o estado de
loucura, diziam: “afinal, psicólogo e psiquiatra eram para loucos”. Hoje esta prática
vem mudando, o conhecimento tem trazido aceitação, entendimento para todas as
gerações. A psicoterapia passa a ser uma importante oferta de melhoria e segurança
da saúde, estabelece-se a relação com o psicólogo, que se ocupa em ouvir o sujeito sem julgá-lo, que
guarda e zela pelos seus segredos (pela
ética) e que reconhece as “dores da
alma”, propiciando uma relação constituída pela confiança e formação de vínculo
capaz de propiciar a ajuda que o idoso almeja.
Quais recursos psíquicos este indivíduo terá para
enfrentar a realidade deste momento?
Quais estratégias usará para suportar as limitações
que os anos imprimem?
O papel da Psicologia será o de conhecer como este
sujeito se faz existir no mundo, como estruturou a sua personalidade, que grau
de maturidade atingiu, quanto ele continua gostando de si mesmo, aceitando suas
potencialidades e limitações, como convive com suas frustrações, como se adapta
às situações de perdas, qual sua capacidade de se reinventar. Portanto, pensar
a velhice, sob esse enfoque, nos remete a pensar no mundo, mas não só no mundo
constituído de realidade dos acontecimentos e fatos, mas no mundo interno, no
mundo significado pelo sujeito. Este mundo interno fornece ao psicólogo a
possibilidade de ver o SER idoso como um sujeito histórico, capaz de absorver
conceitos e constituir transformações em si e propiciar um novo modo de estar
no mundo consigo mesmo e com o outro.
Neide Azevedo Dezen de Queiroz
Psicóloga - CRP 06/73593
Especialista em psicologia do envelhecimento pelo
CEPSIC – FMUSP, São Paulo, SP.
Presidente da UNIPSICO – Gestão 2016/2018.
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